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Jan 15 2010

Os trabalhadores da madrugada e a sociedade 24 horas

“Elas ficam sempre acesas”, diz o gerente de fiscalização de um supermercado situado no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, apontando para a maioria das 400 lâmpadas do estabelecimento comercial, que nunca foram desligadas desde a inauguração da loja, no ano passado. Assim como o Extra, que opera em regime contínuo, é visível uma disponibilidade crescente de serviços 24 horas espalhados pela capital pernambucana. Eles acentuam uma realidade que, ao mesmo tempo em que modifica a vida do recifense, traz impactos consideráveis à saúde de quem os mantém. São bares, mercados, petshops, academias de ginástica, bingos, escritórios, lojas de conveniência, uma lista que só faz aumentar. Para manter essa gama de serviços funcionando, um exército de trabalhadores noturnos, tema que será enfocado nesta série de quatro reportagens, realiza atividades em horários pouco convencionais, quando a maioria da população está dormindo ou se divertindo.

O fenômeno vem sendo chamado por especialistas de “sociedade 24 horas” e data do fim dos anos 90. Ele pode ser observado nas principais metrópoles do País, que importaram características do estilo de vida da sociedade norte-americana. “Essa ocupação do período noturno com atividades típicas do dia e com serviços considerados não essenciais, como academias de ginástica, lojas de conveniências e outros, surge com diversas mudanças que estão acontecendo de forma acelerada, como o fortalecimento da globalização e a difusão da internet. Está ocorrendo uma transformação cultural de tal maneira que você pode, por exemplo, decidir comprar um xampu às 4h”, explica a doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz, Lúcia Rotenberg.

Uma das três autoras do livro “A saúde do trabalhador na sociedade 24 horas”, Lúcia Rotenberg considera que a ocorrência do trabalho noturno é conseqüência de uma mudança das formas de comunicação em nível global. “As modificações são nas noções de tempo e espaço. A internet mudou tudo, porque as barreiras geográficas foram por água abaixo e o setor de serviços se reinventou. A tendência atual, pelo menos aqui no Brasil, é que as pessoas durmam cada vez menos e trabalhem mais, muitas delas no expediente noturno”, avalia a pesquisadora, que lida com cronobiologia (ciência que estuda os ritmos biológicos) aplicada à saúde do trabalho.

A comunidade acadêmica da qual Rotenberg faz parte se baseia em uma amostragem da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), de São Paulo, que calcula 8,6% da população brasileira como empregada em algum tipo de atividade comercial exercida das 22h às 5h, horário considerado pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) como terceiro expediente, além da manhã e tarde. O dado, no entanto, é antigo, de 1994. Órgãos como o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e Ministério do Trabalho e Emprego, assim como núcleos especializados de universidades nacionais, não possuem estatísticas referentes ao número de trabalhadores no turno da madrugada.

Os pesquisadores também costumam se valer de estatísticas referentes a pessoas que trabalham mais do que as 40 horas semanais previstas pela lei. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2005, 333 mil recifenses, de um total de 1,3 milhão de trabalhadores ativos na capital, passam mais de 49 horas semanais em atividade. O estudo, entretanto, não esclarece qual parcela de empregados atua especificamente durante a madrugada.

A reportagem, em levantamento feito com mais de 40 estabelecimentos e fábricas, observou que no setor industrial até 50% da mão-de-obra pode exercer algum tipo de função durante a noite, como é o caso das indústrias de produtos químicos. No metrô, o percentual chega a 30%. Nos serviços, varia de cerca de 7%, em empresas de telemarketing e supermercados, a até 45%, em restaurantes situados no Aeroporto Internacional do Recife.

“Esta é uma questão muito complicada, porque ainda não há estatística consolidada sobre isso no Brasil. Na Europa e nos Estados Unidos, a tendência é de diminuição da carga horária de trabalho e aproveitamento gradual do tempo livre. Aqui o caminho é inverso, pois o índice de desemprego e a desigualdade impedem que isso ocorra. O trabalho na madrugada pode ser interpretado como alento para uma parcela da população que anseia por uma vaga no mercado de trabalho. Por outro lado, ele exaure aquela mão-de-obra, que vive em condições bastante desgastantes”, aponta a socióloga e especialista em trabalho da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Marfisa Cysneiros.

Para o pós-doutor em economia do trabalho e relações industriais pela universidade norte-americana Winsconsin-Madison, Jorge Jatobá, um estabelecimento que abre as portas de madrugada está seguindo uma estratégia de marketing e objetivando criar fidelidade com a clientela. “Se o consumidor sabe que só alguns supermercados e farmácias abrem no terceiro expediente, ele entende que tem maior disponibilidade de fazer compras por ali e isso acaba criando referência. Convencionou-se essa diversificação de produtos, de abrir em horários diferentes para atender uma demanda de mercados que é visivelmente crescente”, explica.

A Delegacia Regional do Trabalho (DRT-PE) determina que seja garantido um mínimo de 20% de adicional noturno, direito de acréscimo salarial criado por Getúlio Vargas em 1º de maio de 1943, contemplado pela legislação federal como forma de compensação, e descanso de até duas horas durante o expediente. Curiosamente, a hora de trabalho que normalmente tem 60 minutos durante o dia é computada como 52 minutos e 30 segundos à noite. Ou seja, cada hora noturna sofre a redução de 7 minutos e 30 segundos ou ainda 12,5% sobre o valor da diurna e, no fim, sete horas trabalhadas equivalem a oito horas no emprego.

“É, com toda a certeza, uma situação que está ganhando força há um tempo. Para tentar garantir boas condições aos trabalhadores, realizamos inspeções periódicas na cidade”, informa o chefe do setor de fiscalização da DRT, Jéferson Lins. A multa para quem desrespeitar a lei é alta, ficando entre R$ 2.700 e R$ 4.025 por descumprimento. Segundo a Diretoria de Controle Urbano do Recife (Dircon), existem na capital pelo menos 274 estabelecimentos que operam durante a madrugada.

Compras às três da manhã

Empregado há quatro meses da rede de supermercados Extra, Deyvisson Luís da Silva, 23 anos, tem uma rotina diferente da maioria dos pernambucanos. Trabalha da meia-noite às 8h e, a cada cinco dias de labuta, ganha uma folga. Além dele, 15 pessoas tem a tarefa de gerenciar a loja quando o restante da cidade está dormindo. De dia, são mais de 90 funcionários. Segundo ele, que é o responsável pela fiscalização da loja, a freqüência tem duas clientelas distintas. “Nas sextas, sábados e domingos, quem costuma vir aqui são jovens, que normalmente compram bebidas. Nos outros dias, vemos muitos homens aparentemente solteiros”, diz.

O designer Silvio Gatis, 22, aprova o modelo de operação contínua adotado pelo grupo comercial. “É muito melhor e facilita nossa vida. Sempre que há alguma reunião na casa de amigos, passamos por aqui antes para levar alguma bebida. É muito prático. Fora isso, sempre que alguma coisa urgente falta em casa, é só pegar o carro e adquirir o produto sem ter que esperar pelo dia seguinte. Tudo em um local com segurança e em um horário onde não precisamos enfrentar filas”, argumenta.

A reportagem observou que, em uma terça-feira, durante cerca de 40 minutos, 25 pessoas passaram pelo único caixa em funcionamento do supermercado. Artigos de higiene, bebidas e comidas como carne congelada foram os produtos da preferência dos clientes. “Notamos que muitos moradores de rua e prostitutas também preferem esse horário para comprar artigos de necessidade, talvez por se sentirem mais à vontade em um período onde o número de compradores é menor”, revela o gerente, que percorre de patins os corredores do estabelecimento.

Quem pensa que o horário noturno é mais calmo, se engana. De acordo com Deyvisson, os roubos são constantes. “Os quatro seguranças da loja e o policial à paisana não dão conta. Dia desses, uma mulher engoliu três brincos e tentou sair como se nada estivesse acontecido. Nossas câmeras conseguiram flagrar a movimentação”, conta. Futuro, para ele, não combina com outro trabalho no terceiro expediente. “Não vejo minha mulher, como mal, durmo pior ainda. Não há adicional que compense a loucura que é encarar esse horário. Não indicaria nem ao meu pior inimigo”, opina.

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Enquanto a maioria da população dorme, eles trabalham

Em cima de oito rodinhas, ela serve mesas, anota pedidos, leva chope, café e sanduíches para os clientes, calcula o valor das contas e ainda sorri. Vestida com um avental amarelo e preto, as cores do restaurante onde trabalha, Ayana Silva, 25 anos, não tem folga. Esbaforida com a correria do expediente, que vai das 19h às 7h, precisa atender mais de 20 mesas, todas repletas de pessoas à espera de alguma comida ou bebida. Nem parece, mas toda essa movimentação que a atendente enfrenta ocorre em plena madrugada, às 3h20, na praça de alimentação do Aeroporto Internacional do Recife, um complexo de 52 mil metros quadrados que recebe cerca de quatro milhões de passageiros por ano.

Moradora do bairro de Brasília Teimosa, na Zona Sul da capital, Ayana passou dois anos na cozinha do restaurante, decorando capuccinos e tortas, até ser promovida à garçonete, em 1999. Precisou aprender a se equilibrar nos patins, garantia de agilidade na execução do serviço. Para cada dia trabalhado, ela ganha outro de descanso. Recebe um salário mínimo, além de adicional noturno de 40% e das gorjetas dos clientes. A trilha sonora de seu expediente varia de “Wave”, de Tom Jobim, a “Borbulhas de Amor”, de Raimundo Fagner, canções dedilhadas em um órgão enferrujado por um músico contratado pelo aeroporto.

Como a maioria dos trabalhadores da madrugada ouvidos durante a elaboração da reportagem, Ayana não é exceção. Não tem ensino superior, trabalha por necessidade e sofre as conseqüências da atividade no terceiro expediente. “Não que eu veja o serviço noturno como alguma aberração, mas me sinto desconfortável nele”, diz. Segundo ela, o intervalo que possui para descansar, de uma hora, é insuficiente. “Não adianta muita coisa, porque o nosso desgaste é enorme. Quando não estou no emprego, passo o dia em casa tentando dormir. Ainda acabei ganhando uma insônia crônica de brinde”, comenta.

Servente de uma firma terceirizada de limpeza, Jeremias Magal da Silva, 24, também tira seu sustento da jornada noturna. Durante todos os dias da semana, carrega latas de lixo, recolhe bitucas de cigarro do chão e varre os três andares do aeroporto. Um trabalho essencialmente braçal. De dia, ainda faz alguns bicos para ajudar a esposa, que está grávida de seis meses. Ao contrário de Ayana, não se diz escravo do sono. “É engraçado que os colegas ficam tão acabados que aproveitam qualquer brecha no expediente para tentar dormir em algum cantinho sem que ninguém veja”, revela.

O pior, para ele, é o mau cheiro do lixo, que fica impregnado nas roupas que veste e até no cabelo. “Tenho que tomar três banhos para chegar perto da minha mulher”, conta. O trajeto até a casa onde mora é longo. Um ônibus para a estação do Barro, na Zona Oeste, e depois o metrô até Camaragibe, na Região Metropolitana do Recife. “Pelo menos a crise aérea passou, era um inferno trabalhar naqueles dias”, diz o funcionário. Perto dele, o painel de informações alerta constantemente os passageiros: “Vôo 3054 para o Rio de Janeiro, embarque imediato”; “Vôo 2516 para São Paulo, com escala em Salvador, aeronave no pátio”.

Atividades essenciais

Outros serviços considerados fundamentais, como a limpeza e a alimentação nos aeroportos, são mantidos por uma vasta mão-de-obra noturna. É o caso de plataformas de petróleo, minas de extração, segurança particular e penitenciária, setor de transportes, casas funerárias, emergências hospitalares, serviços de limpeza, coleta de lixo e manutenção urbana, delegacias de plantão, hotéis, motéis, fábricas e até consultórios de atendimento veterinário, como o Pet Dream, localizado na rua Padre Bernardino Pessoa, em Boa Viagem, Zona Sul do Recife.

A veterinária Camilly Gonçalves, 23, há seis meses trabalhando na madrugada, explica que, a cada noite da semana, até dez animais recebem tratamento no estabelecimento. O atendimento, que ela divide com outro profissional, vai das 19h às 7h. “Diariamente recebemos casos de atropelamento, envenenamento e de cães que desenvolvem algum tipo de problema cardíaco ou de insuficiência renal, mas tem muito proprietário que vem comprar ração ou dar vacina no cachorro às duas da manhã”, comenta.

Perto dali, em um ponto de táxi da praça Cidade do Porto, entre as avenidas Domingos Ferreira e Conselheiro Aguiar, o motorista Paulo Robson, 45, só sabe a hora que entra no veículo: às 22h. Quando volta para casa? “Não sei nem dizer direito, tem dias que fico circulando com passageiros até às 11h. Como não sou proprietário do carro, tenho que compensar o aluguel trabalhando o máximo que puder”, conta. Para se manter acordado, apela para boas doses de café e cochilos sempre que possível. “É difícil, mas precisamos estar sempre atentos e descansados. A gente precisa zelar pela segurança dos outros”, diz.

Garantir a preservação da vida alheia é a função de Ruberval Lima dos Santos, 29, que há dois anos é condutor de uma ambulância UTI do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Com a sirene sempre ligada e em alta velocidade, precisa realizar resgates de vítimas de acidentes de trânsito nas ruas da capital e fazer remoções de pacientes em residências espalhadas por todo o Recife, incluindo locais de difícil acesso, como os morros de Casa Amarela, Zona Norte, ou o bairro do Ibura, Zona Sul, onde os feridos precisam ser carregados em macas por escadarias intermináveis. Nos fins de semana, os dias mais críticos para ele, são cerca de quinze atendimentos noturnos.

“A adrenalina sobe no momento em que a central nos comunica de alguma vítima, porque nosso principal objetivo é levar os pacientes com vida para as grandes emergências e hospitais particulares conveniados com o SUS”, diz. Quando o socorro é acionado, Ruberval divide espaço na ambulância com um técnico de enfermagem. Em casos de maior gravidade, um carro de apoio rápido, veículo de passeio com um médico, dois enfermeiros e outro condutor, presta auxílio à UTI durante a realização das ações de resgate. O melhor de trabalhar à noite, segundo ele, é a ausência de trânsito. “Eu enlouqueceria se dirigisse durante o dia, todo mundo sempre buzinando, um estresse absurdo. De noite as avenidas são minhas”, brinca.

Mantendo a forma

Agitação é o que não falta na Academia Power, situada no Espinheiro, Zona Norte. O espaço funciona durante 24 horas e sequer possui portas, seguindo o modelo de estabelecimentos da Califórnia, nos Estados Unidos. Entre a meia-noite e às 2h, cerca de 50 freqüentadores, como o farmacêutico Ricardo Chaves, 48, se revezam em equipamentos de ginástica, esteiras e bicicletas ergométricas. Com uma rotina repleta de atividades e plantões constantes, o horário alternativo é a única opção de exercícios para ele.

“Meus horários são muito corridos e agitados e, se dependesse só da minha jornada de trabalho, teria que conviver com o estresse e o sedentarismo. Acho extremamente válida a iniciativa de funcionamento contínuo, porque acaba possibilitando interação entre os alunos e garante qualidade de vida para muitos profissionais”, aponta Chaves. Outras academias do Recife, visando essa clientela, estenderam o horário de funcionamento. Quatro delas operam das 5h30 às 23h e, duas, das 5h à meia-noite.

Ao contrário do farmacêutico, o porteiro Jadson Santos do Nascimento, 35, enfrenta uma rotina monótona e sedentária. Há dois anos funcionário de um edifício de 27 andares localizado na avenida Boa Viagem, metro quadrado mais caro da capital, ele fixa os olhos, entre as 19h e 7h, em um monitor que mostra as imagens das 16 câmeras de vigilância do prédio. Para não dormir, costuma fumar cerca de 15 cigarros e tomar mais de seis xícaras de café por expediente. Caminhadas pela portaria também são comuns.

“As horas não passam durante a madrugada, é um exercício diário de concentração”, conta. Morador de Olinda, ele auxilia o pai, realizando transporte de passageiros, de dia, no Bairro Novo. “Estou há mais de 12 anos nessa vida, acho que me acostumei. Fora que às vezes acontecem coisas engraçadas, como quando eu fiz papel de cupido. Certo dia o morador do 22 pediu para eu apresentá-lo a uma vizinha do 24. Os dois eram divorciados e ele se interessou na hora. Acionamos o alarme do carro dela de propósito e coloquei os dois em contato pelo interfone. Hoje eles estão casados e felizes”, diz, orgulhoso.

Sexo e insegurança

Desde os 13 anos, Célia Resende, hoje com 19 e aparentando mais idade, repete a mesma rotina. Sai da casa onde mora com a irmã e o filho de três anos, um conjugado situado em Cavaleiro, Jaboatão dos Guararapes, Região Metropolitana do Recife, e se instala nas proximidades do edifício Holliday, em uma calçada da avenida Conselheiro Aguiar, bairro de Boa Viagem.

Ao longo da via, maior corredor de prostituição da capital, ela divide espaço e atenção com as cerca de 40 prostitutas que fazem da rua o seu local de trabalho. O medo de exercer a atividade é mascarado por um sorriso que insiste em tentar mostrar e pelas brincadeiras com as colegas de ponto. “Já fui estuprada e agredida várias vezes. A qualquer hora podemos entrar em um carro e nunca mais voltar. Fico apavorada, mas é a única saída que tenho atualmente”, explica ela, que exerce uma das profissões mais antigas de que se tem notícia. A atividade sempre foi associada ao período noturno.

A tensão no trabalho é compartilhada pelo soldado Maciel Guedes, 28, há quatro meses trabalhando no Centro de Triagem de Abreu e Lima (Cotel), no Grande Recife, complexo penitenciário com capacidade para 311 internos, mas que abriga 965 presos. Como em um galinheiro, eles precisam dormir com as luzes acesas, todas as noites, para manter o ordenamento interno. O chaveiro, detento de confiança da direção prisional, é a única forma de comunicação que eles têm com os agentes penitenciários, que ficam trancaficados em uma sala especial, também por razões de segurança.

Durante os plantões de 24 horas que realiza, o soldado recebe internos das viaturas da Polícia Civil e evita pensar nas constantes rebeliões que assolam a carceragem. Em setembro, grades e paredes foram destruídas e um preso foi assassinado. Dois meses antes, já havia ocorrido outro motim, ambos durante a madrugada. “Se eu sinto medo? Claro que sim, mas é a vida”, resigna-se.

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O custo de um adicional noturno

“Tim, Alberto. Com quem eu falo, por favor?”. Das 18h às 2h, a frase é repetida, entre 70 e 90 vezes, pelo operador de telemarketing Alberto Lemos, 23 anos, funcionário de uma empresa especializada no setor. Contratado para o turno da tarde, foi transferido para o horário noturno após quatro meses de serviço. Desde então, se descreve como um vampiro. Por causa da profissão, dorme de dia e precisa ficar de olhos abertos durante a madrugada. Ou pelo menos deveria. Depois de dois anos no cargo, ele sofre com a insônia, tem dificuldades para manter relacionamentos fora do ambiente de trabalho, engordou 24 quilos e se diz eternamente cansado e estressado. “A minha vida está uma mazela”, resume.

Os principais protagonistas da vida profissional do operador de telemarketing são os clientes que ligam durante a madrugada, interessados em bônus de cartões pré-pagos de telefonia móvel. Pela freqüência com que acionam o serviço, seja para tirar dúvidas ou simplesmente conversar, alguns se tornaram conhecidos, como um pastor evangélico que faz questão de ligar, todas as noites, somente para dar a bênção. Ver os amigos ou a namorada, que vive em Garanhuns e raramente vem à capital, é tarefa complicada.

“É aquilo que todo mundo comenta, que dormir de dia não é o mesmo que durante a noite, e eu nunca consigo pegar no sono antes das 5h. Sinto fisicamente o impacto, fico irritado, com dores pelo corpo e me falta coragem para fazer exercícios físicos. Parece que deixei de viver e me tornei um robô. Sem falar que tantos problemas acabam afetando a qualidade do meu trabalho”, diz Alberto Lemos. A alimentação, segundo ele, é a pior possível. “Desde que aceitei o emprego não sei o que é café da manhã. Além disso, acabo abusando dos salgados e refrigerantes vendidos nas máquinas da firma”, conta.

O metroviário Paulo Campos, 53 anos, que há cinco cuida da manutenção do metrô, compartilha dos problemas enfrentados por Alberto. Pai de três filhos, ele trabalha nove dias no mês das 22h às 5h, horário em que cerca de 450 dos 1.500 funcionários do sistema de transportes estão exercendo algum tipo de atividade funcional. Durante o dia, ainda atua como diretor jurídico no sindicato da categoria. “É crítico observar que, por conta dos baixos salários, muita gente está optando pelo horário da madrugada, atraída pelo adicional noturno, que aqui é de 50%”, afirma.

A rotina no horário noturno, de acordo com ele, gera diversos problemas no convívio familiar. “A relação com a família fica muito prejudicada, você não vê seus filhos e se torna um desconhecido dentro de casa. Trata-se de uma situação de absurdo, mas que é necessária, frente à economia atual, e isso não significa, definitivamente, qualidade de vida”, avalia. Na ocasião da entrevista, Paulo estava há mais de 35 horas sem dormir, devido às atividades na estação central do metrô e no sindicato.

A digitadora do Posto Fiscal da Fazenda do município de Xexéu, na Zona da Mata Sul, Ada Barros, 29, também reclama do cotidiano. Todos os dias, da meia-noite às 6h, protocola cerca de 100 notas fiscais de caminhoneiros que passam pela região, na divisa de Pernambuco com Alagoas. “Desde que comecei o serviço que não sou mais a mesma. A mente fica tão cansada, não dá vontade de fazer nada, nem mesmo nas horas livres. Só dormir. O humor também fica afetado. Tem dias que nem eu mesma me agüento”, relata.

Segundo o pneumologista e responsável pela Clínica do Sono do Hospital Santa Joana, situado nas Graças, Zona Norte do Recife, Alfredo Pereira Leite, alguns empregados apresentam maior facilidade de adaptação ao horário noturno, mas é impossível, biologicamente, o organismo se enquadrar plenamente ao período. “A fisiologia humana determina que é necessário dormir à noite, em decorrência do funcionamento hormonal. Há diversas substâncias, como a melatonina (responsável pela regulação dos ciclos de sono/vigília), programadas para serem secretadas somente durante o período noturno. Ter um sono de qualidade garante, além de repouso corporal e mental, a manutenção de vários processos biológicos e psicológicos”, explica.

Segundo ele, a situação se torna mais complicada para as pessoas que, como o metroviário Paulo, trabalham em regime de turnos alternados. “O ideal seria que o funcionário dormisse todos os dias em um mesmo horário, caso contrário há a necessidade de reajustar o relógio biológico com muita freqüência. É como uma viagem para o Japão a cada quatro ou cinco dias”, compara. Além dos fatores corporais, ele cita que os indivíduos que precisam dormir durante o dia convivem com uma série de fatores externos que dificultam uma boa qualidade do sono, como claridade, ruído e calor.

A longo prazo, as conseqüências da privação de um sono adequado podem ser desastrosas. O especialista cita que é comum, inicialmente, ser observada uma queda no rendimento de trabalho. “Depois, o indivíduo começa a ficar mais irritado, sua capacidade de concentração fica diminuída, a memória é afetada, e são observados problemas gastrointestinais, no sistema imunológico, de hipertensão arterial, e distúrbios psicológicos”, enumera.

O doutor em neurobiologia cognitiva molecular e pesquisador da área de sono e memória da Universidade de Duke, nos Estados Unidos, Sidarta Ribeiro, explica que o sono está para a memória assim como a digestão está para a comida. “Ao dormir, alimentamos a memória. A falta de sono prolongada pode levar a delírios psicóticos, aproximando-se sintomaticamente, por caminhos outros, do que se observa na esquizofrenia (doença psiquiátrica grave que leva à incapacidade de distinguir a realidade da imaginação)”, revela o especialista, que é responsável pelo Instituto Internacional de Neurociência de Natal, no Rio Grande do Norte.

A doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz, do Rio de Janeiro, Lúcia Rotenberg, aponta que os trabalhadores noturnos, além da inversão do relógio biológico, convivem com uma série de fatores de risco. “Em geral, se alimentam mal, fumam mais e realizam menos atividades físicas que o restante da população. Isso desorganiza totalmente a vida e a saúde dessas pessoas”, diz.

Segundo ela, são necessárias intervenções nas empresas para minimizar as conseqüências negativas da profissão noturna. “É preciso, por exemplo, dispor de uma alimentação adequada para esse pessoal, de atividades físicas e um ambiente calmo. É claro que do ponto de vista do consumidor tais serviços são ótimos, porque ele tem mais opções, mas é necessário que essa questão seja encarada com responsabilidade pelos funcionários e empregadores. O adicional noturno não resolve uma saúde prejudicada”, defende.

Na opinião da neurologista do Instituto do Sono da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), Dalva Poyares, a tendência atual é que as pessoas durmam cada vez menos e trabalhem mais. “Isso pode ser observado perfeitamente naqueles que mantém os serviços 24 horas, mas dormir é essencial. Se um controlar de vôo estiver privado de sono ele ficará mais irritado, agressivo e raciocinará mal, isso num cargo em que ele é obrigado a tomar decisões pensadas e rápidas. A falta de sono crônica é um problema epidemiológico. A sociedade subestima menos o sono hoje que antes, mas ainda existe o preconceito. Você é julgado pelo quanto produz ao ficar acordado”, afirma.

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Sono e uso de arrebites aumentam riscos de acidentes

Extensos períodos de privação de sono e longas viagens madrugada adentro além de prejudicar a saúde de condutores de caminhões e carretas, representam um risco à vida de outras pessoas. Segundo dados da Polícia Rodoviária Federal (PRF), o sono responde por 1,78% dos acidentes nas rodovias federais. De janeiro a julho deste ano, Pernambuco registrou 2.315 acidentes, que deixaram 1.477 feridos e 183 mortos. No Brasil foram contabilizados 58.970 ocorrências, com 35.714 feridos e 3.261 mortes, no mesmo período.

Como a maioria dos condutores ganha por produção, a necessidade de se manter acordado é fator vital para garantir um nível de rendimento mínimo. Para enfrentar jornadas de até 30 horas seguidas atrás do volante e chegar antes do prazo estipulado ao destino, muitos motoristas preferem ficar sem dormir e fazem uso de comprimidos de anfetaminas (substância conhecida popularmente como rebite ou arrebite), juntamente com álcool (em geral, conhaque), e drogas como a maconha.

Na avaliação do pós-graduado em pneumologia e medicina do sono em Paris, na França, e ex-vice-presidente da Sociedade Brasileira do Sono, Sérgio Barros, tantos fatores de risco somados constituem uma situação bastante grave. “A anfetamina causa dependência química e agride o organismo de quem a consome. Quando o efeito passa, o sono vem de forma avassaladora e é necessário tomar outra dose. E depois outra. Tem motorista que precisa de cinco ou seis comprimidos por madrugada e isso coloca a vida deles e a de outras pessoas em risco”, alerta.

Para o pneumologista, o empresariado brasileiro não adota procedimentos prevencionistas. “A mão-de-obra só irá atender à necessidade do empregador se estiver bem preparada e em boas condições de saúde, mas parece que isso não é entendido”, critica. Desde 2000, ele coordena o programa de Medicina do Sono da Viação Águia Branca, empresa com sede no Espírito Santo e filiais em todo o País. A iniciativa é pioneira e desenvolve um trabalho preventivo de educação para o trânsito e tratamento de saúde para 1.500 motoristas envolvidos na ação.

Depois de implantado o programa, a transportadora não registrou nenhum acidente causado por sonolência em mais de 85 milhões de quilômetros percorridos por caminhões e carretas. Ao longo do tratamento, que ocorre entre duas a três vezes por semana, enquanto o profissional estiver ligado ao grupo empresarial, os motoristas realizam atividades físicas, como corridas e alongamentos e se alimentam de forma adequada nas 13 salas de estimulação espalhadas pelo País.

Durante a realização dos exercícios, os condutores são expostos à luz artificial, procedimento que leva cerca de 20 minutos e inibe a produção da melatonina. A ação, segundo o especialista, não causa danos à saúde. O processo é acompanhado por profissionais que analisam periodicamente as condições de cada indivíduo e realizam polissonografias (exame que avalia o padrão de sono) quando necessário.

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A madrugada como fonte de inspiração

De cenário dos principais filmes de terror do cinema mundial e figura do imaginário coletivo a subsídio inesgotável para compositores, pintores, cineastas e escritores, a madrugada é, segundo muitos deles, horário ideal para a criação artística. Seja pela “aura” que o período noturno carrega ou simplesmente pelo silêncio, ao contrário do caos natural do dia, ela é protagonista de poemas, músicas, telas, obras cinematográficas e diversas outras formas de manifestação cultural e emocional.

Em início de carreira, o cineasta, roteirista e integrante do coletivo cultural TV Primavera, João Marcelo Ferraz, 21 anos, só consegue dormir depois das 3h. Aproveita as madrugadas para escrever e desenvolver projetos como o Cinema Vertical, intervenção artística realizada na avenida Conde da Boa Vista, em 2006, onde imagens desconexas foram projetadas na fachada do edifício Canadá. Seu novo filme, “O Rei do Coco”, está em exibição em mostras nos Estados Unidos e Holanda.

“A madrugada é o período mais produtivo pra mim, porque a casa está dormindo e a cidade fica mais quieta. Não lembro de nenhuma idéia minha que eu considere boa e que tenha vindo durante o dia. O problema é o barulho e o sentimento de movimentação próxima, que não me deixa relaxar totalmente e fazer com que as idéias fluam. O calor da manhã também atrapalha bastante o pensamento”, acredita.

A opinião de João Marcelo é compartilhada pelo diretor de fotografia e roteirista Luis Henrique Leal Barbosa Maranhão, 22 anos, que desde os sete costuma passar as madrugadas em claro. “Acho que isso começou com um significado afetivo, pois quando eu era pequeno, meu pai estava fazendo doutorado e os poucos horários em que o encontrava eram de madrugada. Com o tempo, passei a fazer os deveres de casa no período, para ficar junto dele, e hoje só consigo criar quando o resto da família está dormindo”, conta.

Autor de seis curtas-metragens e atualmente trabalhando na elaboração de um programa de televisão, ele defende que o tempo é melhor aproveitado durante à noite. “De madrugada, os ponteiros do relógio andam devagar. Fico mais concentrado e posso me estender até onde quiser ou o corpo agüentar. Eu não gosto de começar a trabalhar com horário para terminar e isso só é possível nesse período. De dia, tenho a sensação de que há rotinas que interrompem as atividades criativas, como, por exemplo, horários para comer ou reuniões agendadas”, diz ele, que também realiza serviços como free lancer.

Quem também diz ser difícil interromper o processo criativo, que em geral ocorre durante a madrugada, é o produtor de televisão carioca Bruno de Freitas Boghossian, 23, que escreve roteiros de seriados para diversos sites. “Se essa coisa (a inspiração) invade a sua cabeça, você tem que esquecer o relógio um pouco e aproveitar, porque no dia seguinte as idéias podem ter ido embora”, opina. Por ter prazos para entregar o material, é comum que ele amanheça o dia escrevendo para terminar os episódios a tempo.

“Claro que isso bagunça o meu dia, mas acho que é um tipo de concessão que você acaba fazendo sem pensar. Inspiração é um sentimento muito bom, você se sente poderoso, em controle e vislumbra que está criando alguma coisa genial, mesmo que ela seja horrível. No dia seguinte vem o sono, mas, de certo modo, é possível conviver com isso”, aponta o produtor, que atualmente se debruça sobre uma série sobre pessoas que, assim como ele, se dedicam à produção de programas de televisão.

Também notívago, o músico Enio Damasceno Saucedo Júnior, 25, costuma dormir somente às 9h da manhã, horário considerado absurdo pela maioria da população. As horas de sono também impressionam, no máximo quatro por dia, pois ao meio-dia já está em pé. Compositor, guitarrista, tecladista e baixista, ele costuma deixar todos os instrumentos ligados 24 horas, em caso do aparecimento de alguma idéia. “Eu me inspiro de madrugada, acho que é por causa daquela coisa poética da noite”, diz.

Por sofrer de insônia desde pequeno, ele aproveitou o tempo em que lutava contra o sono para se dedicar a contos, pintura e poesia. Depois vieram a música e as turnês nacionais com o quarteto recifense Mellotrons. A rotina com a banda, de acordo com ele, contribuiu ainda mais para a inversão de seu fuso horário. “Minha relação com sono é muito tensa, sem falar que eu demoro para dormir. Se eu não aproveitasse esse período para tentar criar alguma coisa e despejar o que vem na cabeça, estaria enlouquecendo”, revela.

Ter uma rotina normal? “Eu morreria, sério. Essa idéia é simplesmente um pesadelo pra mim. Não consigo me imaginar acordando às 8h e indo trabalhar, voltando para casa no fim da tarde e indo dormir às 22h. A carreira musical contribuiu para eu ter essa idéia, mas ela passou a ser inerente à minha concepção de vida, tem dias que chego ao absurdo de passar mais de 12 horas seguidas trabalhando na guitarra”, revela.

O vocalista do grupo de forró Fim de Feira, Bruno Lins, 27, vive entre os shows e, assim como Enio, acredita que a madrugada é o período ideal para compor. Com uma rotina de dois shows semanais, que chegam a somar entre 30 e 40 somente no período das festas juninas, ele costuma pegar no sono às 5h, horário em que o pai está saindo de casa para caminhar no Parque da Jaqueira, na Zona Norte do Recife.

Mesclando literatura de cordel, poesia e linguagem popular, o Fim de Feira, composto por seis integrantes e com três anos de estrada, já tocou em Londres (Inglaterra), e Barcelona (Espanha). “Meu processo criativo é cíclico. Recentemente, a banda estava precisando de um verso pra abrir um show. Passei o dia inteiro tentando fazer algo e não consegui. Cheguei em casa, peguei o notebook e saiu na hora, tudo depois da meia-noite. Não conheço ninguém que consiga fazer uma música no caos do meio-dia”, afirma.

A artista plástica Marília Neves, 22, assim como Bruno Lins, também aproveita a calmaria da madrugada para pintar, escrever e realizar produção e edição em vídeo. “É algo muito instintivo, os pensamentos fluem. Aproveito essa situação para criar telas, já que gosto da progressão das cores do pôr-do-sol, do escuro da noite e também do dia que amanhece, pois costumo ficar produzindo até o dia seguinte. Eu gosto desse ciclo”, conta ela, que está além do trabalho com os pincéis, está montando uma grife no Recife.

Para lidar com eventuais bloqueios criativos, ela apela para o fogão. Tortas, massas e até comida japonesa, feitas em plena madrugada, não são atividade incomum na rotina de Marília. “Eu passei um tempo em completa escassez de idéias e nessa busca por coisas novas descobri que cozinhar é uma excelente saída. Tentar um prato diferente, por incrível que pareça, colabora na hora de trabalhar em uma tela e escolher as melhores cores. Minha família adora amanhecer com alguma coisa feita por mim na geladeira”, revela.

O artista plástico carioca Tahian Bhering, 22, acredita que muitos colegas de profissão dele e de Marília estão optando pela noite por ela ser o único horário disponível para criação artística. “Como muita gente, durante o dia preciso realizar serviços de free lancer, terminar encomendas de festival, organizar mostras e comprar material e por isso acaba sendo inevitável utilizar a madrugada. Acaba que, no fim das contas, ou você dorme ou aproveita o tempo que sobra. É parte da contemporaneidade”, aponta.

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