Os trabalhadores da madrugada e a sociedade 24 horas
“Elas ficam sempre acesas”, diz o gerente de fiscalização de um supermercado situado no bairro de Boa Viagem, Zona Sul do Recife, apontando para a maioria das 400 lâmpadas do estabelecimento comercial, que nunca foram desligadas desde a inauguração da loja, no ano passado. Assim como o Extra, que opera em regime contínuo, é visível uma disponibilidade crescente de serviços 24 horas espalhados pela capital pernambucana. Eles acentuam uma realidade que, ao mesmo tempo em que modifica a vida do recifense, traz impactos consideráveis à saúde de quem os mantém. São bares, mercados, petshops, academias de ginástica, bingos, escritórios, lojas de conveniência, uma lista que só faz aumentar. Para manter essa gama de serviços funcionando, um exército de trabalhadores noturnos, tema que será enfocado nesta série de quatro reportagens, realiza atividades em horários pouco convencionais, quando a maioria da população está dormindo ou se divertindo.
O fenômeno vem sendo chamado por especialistas de “sociedade 24 horas” e data do fim dos anos 90. Ele pode ser observado nas principais metrópoles do País, que importaram características do estilo de vida da sociedade norte-americana. “Essa ocupação do período noturno com atividades típicas do dia e com serviços considerados não essenciais, como academias de ginástica, lojas de conveniências e outros, surge com diversas mudanças que estão acontecendo de forma acelerada, como o fortalecimento da globalização e a difusão da internet. Está ocorrendo uma transformação cultural de tal maneira que você pode, por exemplo, decidir comprar um xampu às 4h”, explica a doutora em psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) e pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz, Lúcia Rotenberg.
Uma das três autoras do livro “A saúde do trabalhador na sociedade 24 horas”, Lúcia Rotenberg considera que a ocorrência do trabalho noturno é conseqüência de uma mudança das formas de comunicação em nível global. “As modificações são nas noções de tempo e espaço. A internet mudou tudo, porque as barreiras geográficas foram por água abaixo e o setor de serviços se reinventou. A tendência atual, pelo menos aqui no Brasil, é que as pessoas durmam cada vez menos e trabalhem mais, muitas delas no expediente noturno”, avalia a pesquisadora, que lida com cronobiologia (ciência que estuda os ritmos biológicos) aplicada à saúde do trabalho.
A comunidade acadêmica da qual Rotenberg faz parte se baseia em uma amostragem da Fundação Sistema Estadual de Análise de Dados (Seade), de São Paulo, que calcula 8,6% da população brasileira como empregada em algum tipo de atividade comercial exercida das 22h às 5h, horário considerado pela Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) como terceiro expediente, além da manhã e tarde. O dado, no entanto, é antigo, de 1994. Órgãos como o Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) e Ministério do Trabalho e Emprego, assim como núcleos especializados de universidades nacionais, não possuem estatísticas referentes ao número de trabalhadores no turno da madrugada.
Os pesquisadores também costumam se valer de estatísticas referentes a pessoas que trabalham mais do que as 40 horas semanais previstas pela lei. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2005, 333 mil recifenses, de um total de 1,3 milhão de trabalhadores ativos na capital, passam mais de 49 horas semanais em atividade. O estudo, entretanto, não esclarece qual parcela de empregados atua especificamente durante a madrugada.
A reportagem, em levantamento feito com mais de 40 estabelecimentos e fábricas, observou que no setor industrial até 50% da mão-de-obra pode exercer algum tipo de função durante a noite, como é o caso das indústrias de produtos químicos. No metrô, o percentual chega a 30%. Nos serviços, varia de cerca de 7%, em empresas de telemarketing e supermercados, a até 45%, em restaurantes situados no Aeroporto Internacional do Recife.
“Esta é uma questão muito complicada, porque ainda não há estatística consolidada sobre isso no Brasil. Na Europa e nos Estados Unidos, a tendência é de diminuição da carga horária de trabalho e aproveitamento gradual do tempo livre. Aqui o caminho é inverso, pois o índice de desemprego e a desigualdade impedem que isso ocorra. O trabalho na madrugada pode ser interpretado como alento para uma parcela da população que anseia por uma vaga no mercado de trabalho. Por outro lado, ele exaure aquela mão-de-obra, que vive em condições bastante desgastantes”, aponta a socióloga e especialista em trabalho da Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE), Marfisa Cysneiros.
Para o pós-doutor em economia do trabalho e relações industriais pela universidade norte-americana Winsconsin-Madison, Jorge Jatobá, um estabelecimento que abre as portas de madrugada está seguindo uma estratégia de marketing e objetivando criar fidelidade com a clientela. “Se o consumidor sabe que só alguns supermercados e farmácias abrem no terceiro expediente, ele entende que tem maior disponibilidade de fazer compras por ali e isso acaba criando referência. Convencionou-se essa diversificação de produtos, de abrir em horários diferentes para atender uma demanda de mercados que é visivelmente crescente”, explica.
A Delegacia Regional do Trabalho (DRT-PE) determina que seja garantido um mínimo de 20% de adicional noturno, direito de acréscimo salarial criado por Getúlio Vargas em 1º de maio de 1943, contemplado pela legislação federal como forma de compensação, e descanso de até duas horas durante o expediente. Curiosamente, a hora de trabalho que normalmente tem 60 minutos durante o dia é computada como 52 minutos e 30 segundos à noite. Ou seja, cada hora noturna sofre a redução de 7 minutos e 30 segundos ou ainda 12,5% sobre o valor da diurna e, no fim, sete horas trabalhadas equivalem a oito horas no emprego.
“É, com toda a certeza, uma situação que está ganhando força há um tempo. Para tentar garantir boas condições aos trabalhadores, realizamos inspeções periódicas na cidade”, informa o chefe do setor de fiscalização da DRT, Jéferson Lins. A multa para quem desrespeitar a lei é alta, ficando entre R$ 2.700 e R$ 4.025 por descumprimento. Segundo a Diretoria de Controle Urbano do Recife (Dircon), existem na capital pelo menos 274 estabelecimentos que operam durante a madrugada.
Compras às três da manhã
Empregado há quatro meses da rede de supermercados Extra, Deyvisson Luís da Silva, 23 anos, tem uma rotina diferente da maioria dos pernambucanos. Trabalha da meia-noite às 8h e, a cada cinco dias de labuta, ganha uma folga. Além dele, 15 pessoas tem a tarefa de gerenciar a loja quando o restante da cidade está dormindo. De dia, são mais de 90 funcionários. Segundo ele, que é o responsável pela fiscalização da loja, a freqüência tem duas clientelas distintas. “Nas sextas, sábados e domingos, quem costuma vir aqui são jovens, que normalmente compram bebidas. Nos outros dias, vemos muitos homens aparentemente solteiros”, diz.
O designer Silvio Gatis, 22, aprova o modelo de operação contínua adotado pelo grupo comercial. “É muito melhor e facilita nossa vida. Sempre que há alguma reunião na casa de amigos, passamos por aqui antes para levar alguma bebida. É muito prático. Fora isso, sempre que alguma coisa urgente falta em casa, é só pegar o carro e adquirir o produto sem ter que esperar pelo dia seguinte. Tudo em um local com segurança e em um horário onde não precisamos enfrentar filas”, argumenta.
A reportagem observou que, em uma terça-feira, durante cerca de 40 minutos, 25 pessoas passaram pelo único caixa em funcionamento do supermercado. Artigos de higiene, bebidas e comidas como carne congelada foram os produtos da preferência dos clientes. “Notamos que muitos moradores de rua e prostitutas também preferem esse horário para comprar artigos de necessidade, talvez por se sentirem mais à vontade em um período onde o número de compradores é menor”, revela o gerente, que percorre de patins os corredores do estabelecimento.
Quem pensa que o horário noturno é mais calmo, se engana. De acordo com Deyvisson, os roubos são constantes. “Os quatro seguranças da loja e o policial à paisana não dão conta. Dia desses, uma mulher engoliu três brincos e tentou sair como se nada estivesse acontecido. Nossas câmeras conseguiram flagrar a movimentação”, conta. Futuro, para ele, não combina com outro trabalho no terceiro expediente. “Não vejo minha mulher, como mal, durmo pior ainda. Não há adicional que compense a loucura que é encarar esse horário. Não indicaria nem ao meu pior inimigo”, opina.